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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Siddhartha- Hermann Hesse


Data da primeira publicação: 1922


Contextualização

Hermann Hesse (Prémio Goethe e Nobel da Literatura em 1946) é considerado um dos maiores escritores Alemães de sempre. Siddhartha é um romance inspirado na viagem do autor à Índia em 1911, na qual pôde conhecer a cultura e a espiritualidade Oriental. É a estória de Siddhartha Gautama, o Iluminado, pai da religião à qual chamamos Budismo. Considerada um clássico da literatura, é uma referência literária, escrita de forma directa e simples. Nesta obra, podemos não só familiarizarmo-nos com uma cultura tão diversa da nossa como é a cultura indiana mas também questionar os nossos valores e ideias pré-concebidas acerca da vida e do mundo. O existencialismo perpassa a obra de Hermann Hesse.  Foi definida pelo autor como um “poema indiano”, e isso deve-se muito em parte à musicalidade do texto. Segue-se um guia de leitura da obra que não pretende substitui-la, mas sim apresentá-la.


Capítulo I- O Filho do Brâmane (privilégio)
Siddharta era um jovem filho de um Brâmane, a casta superior das sociedades Hindus (os que tinham acesso ao mais elevado conhecimento, - eram sacerdotes, letrados) muito belo e inteligente, privilegiado, adorado por todos, especialmente pelas mulheres e pelo seu grande amigo Gotama. Estudava para ser Brâmane, seguindo os passos de seu pai (“aquele que é versado no conhecimento de Brahman- a alma cósmica”). Govinda e Siddhartha eram, quase irmãos, eram inseparáveis. Siddhartha não se sentia feliz, não encontrava nos ensinamentos e rituais Brâmanes, as respostas que procurava. É aí que decide pedir permissão a seu pai para se juntar a um grupo de Samanas (sábios da floresta), ao que este tristemente acede. O seu fiel amigo Govinda segue-o, como sempre tinha seguido até então.


Capítulo II- Com os Samanas (ascetismo)
Passa três anos com os Samanasda floresta, aprende a jejuar, meditar, o abandono do corpo, a eliminar o ego. Percebe então que a filosofia dos Samanas não é senão uma fuga à vida e a si mesmo. É então que encontra Gotama, um mestre seguido por muitos.

Capítulo III- Gotama (recusa das ideologias, o caminho da iluminação provém da experiência)
Neste capítulo, Siddhartha escuta a ideoligia de Gotama, mas acima de tudo, observa-o. Reconhece a sua sabedoria e respeita a sua ideologia, mas diz-lhe que o caminho para a iluminação só pode ser alcançado pela experiência e não através de ideologias. É nesta parte da estória que ele e o seu amigo Govinda se separam, pois este passa a ser seguidor de Gotama.


Capítulo IV- Despertar
Momento da acção em que Siddhartha reflecte sobre a sua vida e escolhas, sentindo-se só, e entende que a partir desse momento seria apenas Siddharta, não mais pertenceria a nenhum grupo. (“Mas que desejaste aprender dos teus mestres e extrair dos seus preceitos? Que será aquilo que eles, que tanto te ensinaram não conseguiram propiciar-te?”...”Era meu desejo conhecer o sentido e a essência do eu, para desprender-me dele e superá-lo. Apenas logrei iludi-lo. Consegui, sim, fugir dele e furtar-me às suas vistas. Realmete, nada neste mundo me preocupou tanto quanto esse eu, esse mistério de estar vivo, de ser um indivíduo, de achar-me separado e isolado de todos os demais, de ser Siddharta! E de coisa alguma sei menos do que sei quanto a mim, Siddharta!”). Sente aqui um renascer.


Capítulo V- Kamala (paixão, descobertados prazeres sensuais, sensoriais)
Desperto para um novo mundo, como uma criança que olha para ele pela primeira vez, Conhece a cortesã Kamala, de “lábios de figo recém- cortado”. Para ele era agora importante não apenas pensar mas sentir. Para poder usufruir dos ensinamentos na arte do prazer de Kamala era necessário possuir riqueza, logo Siddhartha que era instruído, decide procurar emprego. Começa a trabalhar para o comerciante mais rico da cidade.


Capítulo VI- Entre os homens tolos
Neste capítulo, Siddhartha ganha dinheiro suficiente para poder visitar Kamala. Mantém alguns hábitos apreendidos com os Samanas, come apenas o necessário, e não bebe vinho. Para ele as vidas das pessoas parecem-lhe tolas, longe do essencial. Tudo para ele lhe parecia uma brincadeira, as vidas das pessoas e os seus problemas pareciam-lhe superficiais. Leva esta vida com desprendimento. No entanto conhece pessoas que passam a estimá-lo, a pedir-lhe os seus conselhos, viaja, e por fim torna-se sócio do comerciante. Enriquece.


Capítulo VII- Sansara
Siddhartha sente repugnância pela via que pela qual enveredou, por si mesmo. Tinha-se entregue ao jogo e à bebida, aos excessos. Irritava-se facilmente, tinha insónias e sentia-se amargurado, já não escutava a sua voz interior. Sentia que nunca poderia sentir apego por aquelas pessoas, nem de sentir amor. “Atormentava-o a impressão de ter levado uma existência vil, miserável, insensata”. Decide então abandonar a cidade para nunca mais voltar.


Capítulo VIII- À beira do rio
Vagueando pela floresta desiludido consigo mesmo, Siddhartha planeia suicidar-se atirando-se ao rio. Ao contemplar o rio porém surge-lhe a palavra Oom e ele cai num sono profundo. Quando acorda vocaliza o Oom novamente. Precebe que o seu amigo Govinda tinha estado a vigiar o seu sono. Novamente foi como se tivesse renascido, rejuvenescido, como se a sua vida anterior estivesse já longe, como uma encarnação anterior. (“Que bom- assim pensou- provar tudo quanto se necessita conhecer!Em criança, já aprendi que a riqueza e os prazeres mundanos não nos trazem nenhum proveito. Há muito tempo sabia disso, mas somente agora cheguei a assimilar essa sabedoria. Hoje me compenetrei dela. Possuo-a não só na memória, senão no olhos, no coração, no estômago. É uma benção ter essa certeza.”).


Capítulo IX- O barqueiro Vasuveda
Siddhartha reencontra um barqueiro, Vasuveda, torna-se seu amigo e tal como ele discípulo do rio. Com ele aprende ensinamentos simples e preciosos. Após alguns anos, Kamala surge vinda de uma peregrinação, mas é picada por uma serpente e morre. Não sem antes anunciar que ambos tiveram um filho.


Capítulo X- O filho (A descoberta do amor)
Siddhartha passa a morar com filho na cabana do barqueiro e tenta conquistar a sua afeição, mas é desprezado devido à sua actual condição de barqueiro. O filho tinha sido educado em circunstâncias diferentes e rejeita o pai. Decide fugir, e Siddharta vai em busca dele mesmo contra o conselho do barqueiro, mas após meditar desiste de o fazer.


Capítulo- XI Oom
Neste capítulo Siddhartha, que continua a pensar no filho, consegue compreender o que o seu pai teria sentido quando este o abandonou para se juntar aos Samanas e conforma-se com a sua partida. O barqueiro Vesuveda entende que Siddharta tinha aprendido a sabedoria do rio, e parte para a selva.


Capítulo XII- Govinda (Reencontro de dois amigos que percorreram caminhos diferentes)
No capítulo final, Govinda ouve falar de um barqueiro sábio e decide ir conhecê-lo sem saber que é Siddharhta. Têm uma longa conversa até que Govinda reconhece o amigo. Ao olhar nos seus olhos sente uma sensação de profunda serenidade e paz e entende que Siddharta alcançou finalmente aquilo que buscava. (“Podemos partilhar conhecimentos, mas não sabedoria. Podemos encontrá-la, podemos vivê-la podemos ganhar importância com ela, fazer maravilhas com ela, mas não podemos (…) ensiná-la”)